Domingo, Novembro 15, 2009

Realitas I

O dinheiro é o manto da visibilidade.
Basta tomar um cafezinho na Kopenhagen
para as mulheres ao passar olharem
como se fôssemos feitos de chocolate.

Sábado, Novembro 07, 2009

Eu filosofo como quem dança,
a poesia é uma espécie de vidência,
a fantasia uma forma de vingança.

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

O livro é um templo de palavras
e, de todos, o mais silencioso,
pois nele não há ecos,
apenas espelhos,
e reflexos.

Sábado, Outubro 31, 2009

Quanto tempo levamos pra tomar as rédeas
de nossas próprias vidas?
E quantas vezes já é tarde demais
quando afinal conseguimos?

Sábado, Outubro 17, 2009

Manual Prático de Espeleologia

A angústia é como uma passagem estreita
no interior de uma caverna.
Se o explorador se agita,
debate e enerva,
perde o fôlego,
rasga-se nas arestas,
desperdiça suas energias,
gasta suas reservas
e, se brincar, morre.
Perece pelo próprio desespero.

Mas se ele conserva a lucidez
e prossegue com vagar e cautela...
Bem, o resto você já sabe.

Quarta-feira, Outubro 14, 2009

Eu gosto de "poetisa",
porque me lembra profetisa,
pitonisa, oráculo de Delfos.
Não seriam as sibilas poetas
que acharam no charlatanismo
o único caminho para a poesia?

Domingo, Outubro 11, 2009

Mangusto

A cara desse bicho nos faz perguntar:
o que será a realidade?

Quinta-feira, Setembro 03, 2009

Não se leve tão a sério,
mas também não leve tão a sério
esse negócio de não se levar tão a sério.

Domingo, Agosto 30, 2009

O Náufrago

[Primeira metade do conto publicado no 4º número de Pensamento. Visite-nos.]

para Arthurzinho

O encouraçado Azul singrava a noite. Seria bom que deslizasse incógnito nas trevas, mas uma lua branca, grande e perfeitamente redonda pairava no céu, lançando no oceano uma longa e pálida cauda, ou caminho feérico que levasse ao mundo dos sonhos, contra o qual a silhueta do navio ao passar, com suas torres fantasmagóricas, lembrava um castelo errante. Mas era uma cidade metálica, indicavam os radares e antenas reluzindo cercados de halo.

Como Ulisses ao deixar a fumegante Tróia para trás, o capitão Naum, pitando o seu cachimbo, antegozava o doce regresso ao lar, e o reencontro com a esposa, que ainda não lhe dera a notícia proverbial. Mas quando se ergueu para pegar seu retrato, um abalo quase o atirou ao chão, acompanhado de um violento estrondo. Ocorreu-lhe de imediato a palavra iceberg, enquanto os alarmes disparavam e piscavam as luzes de emergência, não sem receber em resposta uma maré de pragas por parte da tripulação. O segundo estrondo, agora a bombordo, já o encontrou fora de seu aposento, e logo suas ordens foram ouvidas por toda a embarcação através dos alto-falantes. Agora as luzes brancas também piscavam em alguns corredores e instalações elétricas danificadas faiscavam. Embora não houvesse vento e o mar estivesse sereno como um lago interiorano, o navio se agitava e xícaras de café caíam de seus lugares, e talvez na ilha menos distante gaivotas tenham descerrado as pálpebras.

Sem que tivessem idéia da origem do ataque, se outro navio, submarino, ou combinados, as explosões eram incessantes. As telas dos radares não identificavam o inimigo antes de se apagar, muitos marinheiros não atingiram suas posições. Quando o capitão Naum desceu para dar instruções e ânimo, mortos e feridos já juncavam as passagens. Funcionavam apenas os alarmes e as luzes vermelhas, intermitentes, que pareciam gemer e acender com maior intensidade à medida que o fogo se alastrava e avultava em monstro ao devorar este outro, encouraçado, suas mechas palpitantes atirando uma mácula infernal na estrada de alabastro. O castelo ardia em vários pontos, e de nada lhe adiantava ser errante. A cidade estava sitiada. O fumo toldava as estrelas já ofuscadas e a lua a tudo assistia com inalterável impassibilidade. Mas a couraça era resistente, e embora uma torre se despenhasse e a equipagem se agitasse como formigas atônitas, o duelo poderia ter sido longo não fosse um terceiro monstro, diante do qual os outros dois não passavam de bicharocos, um inseto cascudo e uma lagarta fremente, a reivindicar o seu tributo por tamanha insolência. O Azul começara a fazer água, e enquanto se deslocava pelos corredores escuros o capitão Naum, cujo nome, sempre precedido da patente, era invocado de todos os lados, sentia os seus gélidos tentáculos envolverem-lhe os tornozelos ao mesmo tempo que recebia em plena face o cálido hálito do incêndio.

Um jovem marinheiro caído a um canto conseguiu segurar-se a ele. O capitão mal reconheceu o seu rosto quase imberbe, tão transfigurado estava pelo terror, pois uma de suas pernas estava esfacelada e dela subia um cheiro acre de sangue e carne queimados.

- Por favor, capitão... - suplicou ele, prendendo-se a seu superior com todas as forças que lhe restavam.

Mas o capitão sabia que nada podia ser feito. Volvendo para ele seus próprios olhos injetados e tentando dizer-lhe palavras autoritariamente calmantes, rechaçou-o e prosseguiu, ouvindo atrás de si os clamores do condenado, que praguejava contra ele e continuava a chamá-lo. Sentia uma das pernas latejar e sabia que iam ficar as marcas dos dedos. Ficar? Não deixava de ser um pensamento intrigante na iminência do desastre. Foi nesse momento que suas reflexões foram interrompidas por uma explosão mais próxima. Em algum lugar, os inimigos deveriam estar comemorando o êxito do ataque.

Ao despertar, o capitão Naum flutuava com os braços abertos e as pernas separadas, recebendo nas costas e na nuca a luz da manhã, cujos raios ocupavam o espaço à sua volta como um caniçal que se enraizava na imensidão azul lá embaixo. O mar continuava calmo, pôde sentir, pois seu corpo subia e descia com delicadeza. Não estava ferido. Estaria na verdade completamente ileso não fossem os hematomas na panturrilha, e nu, a não ser pela aliança na mão esquerda, cujos reflexos o cegaram no mesmo instante em que lhe veio à lembrança o quanto fizera a esposa rir com gracejos sobre a impossibilidade de tirá-la um dia, tão justa ficara em seu dedo. Um toque no ombro o trouxe de volta ao presente. Um companheiro flutuava bem junto dele, mas sua pele estava fria e ele olhava insistentemente para baixo, no que o acompanhavam outros tantos companheiros espalhados até onde sua visão ia, inertes, pálidos, corrugados, mutilados, exangues, irreconhecíveis. Pouco abaixo alguns giravam num balé sinistro, parecendo astronautas à deriva no vazio, e a pouca distância percebiam-se silhuetas ágeis que nadavam em círculos voluntariosos.

Então, a uma onda um pouco maior o braço do cadáver ao seu lado se moveu como se apontasse, e seguindo a indicação o capitão Naum perscrutou as profundezas. Julgou distinguir um grupo de mergulhadores, numeroso apesar de esparso, que já desaparecia na distância. Sem hesitar um instante, lançou-se verticalmente em sua perseguição. Embebeu-se assim no mistério azul que o fascinava desde a infância. Nadador admirável que era, teria-os alcançado não fosse o imenso cardume que surgiu em seu campo de visão. Avançando em meio a evoluções espalhafatosas como se fosse uma só criatura volúvel e cada um de seus componentes apenas uma de suas escamas, dardejando reflexos cintilantes ora a partir de uma ora a partir de outra de suas faces mutantes, aproximou-se, hipnótico, até envolvê-lo por completo. Quando as barracudas de ar brutal e arrogante o devolveram à sua condição de miríade, dispersando-o, já não havia nenhum sinal dos mergulhadores. Olhou para cima, e tudo o que discerniu foram as silhuetas dos corpos, amiudadas como iscas, contra a luz cegante do sol.

Então, e só então, se deu conta de que ainda não respirara, e no entanto o ar não lhe fazia falta, nem lhe ardiam os olhos, ou a pressão incomodava os ouvidos. De resto, era obrigado a reconhecer que não se sentia predisposto a abandonar aquela região imediatamente.

Sexta-feira, Agosto 07, 2009

Todo grande escritor
é o Midas de seu próprio minério.

Sexta-feira, Julho 24, 2009

Um fotógrafo

"O pintor Levitan está passando uns dias no meu sítio. Ontem, ao entardecer, eu e ele fomos à zona de caça às galinholas. Levitan disparou e uma ave, ferida na asa, caiu num charco. Eu a levantei. Tinha um bico comprido, olhos grandes e pretos e uma plumagem bonita. Olhava para nós, espantada. O que podíamos fazer? Levitan franziu a testa, fechou os olhos e me suplicou, com voz trêmula: 'Por favor, esmague a cabeça dele com a coronha do rifle'. Respondi que não podia. Ele não parava de sacudir os ombros, nervoso, contraía o rosto e suplicava. A galinha olhava para mim, espantada. Tive de obedecer a Levitan e matá-la. E, enquanto dois imbecis voltavam para casa e sentavam-se para jantar, havia uma criatura fascinante a menos no mundo.”
Anton Tchekhov, numa carta de 1892



Foi criado em engenho. Seu pai criava passarinhos, uns comprados, outros que caíam em arapucas colocadas nas fruteiras do pomar, todas plantadas por ele mesmo. Acordavam com o canto misturado dos presos e dos livres, e dos libertos também, já que vez por outra um bicava as taliscas da gaiola e fugia, se não era o gato que o comia como uma fruta indefesa. Uma vez seu pai achou um pelanco de beija-flor que tinha caído do ninho na estrada, as formigas já atacando. Beija-Flor era o nome do engenho. Criaram esse em liberdade ao redor do jasmineiro e quando ficou taludinho foi embora, mas de vez em quando dava o ar da sua graça.

Seu pai caçava, com parcimônia, na mata sobranceira que ficava nos limites do engenho, e à medida que os filhos iam crescendo, chegando à puberdade, iniciava-os na prática, a princípio com espingardas de calibre pequeno, em substituição às de chumbinho com as quais haviam brincado. Rito de passagem. Sua época não chegou. Mudaram-se antes de sua muda em homem. Os troféus eram guardados com cuidado e exibidos com orgulho. Lembrava de uma garra de preguiça, de um bico de tucano – ambos esmaltados – e de uma pele de quati dependurada numa porta. Na casa de seu avô tinha uma de jacaré na parede. Ele tinha uma caixinha de penas.

Assistia à movimentação que antecedia a caçada, todos ao redor da mesma mesa grande no terraço, onde se jogava dominó. As espingardas sendo azeitadas, varetas de ferro com cerdas indo e vindo no interior dos canos, cartuchos preparados com esmero, por fim lacrados com cera, os exercícios nos apitos de madeira, imitando cantos. Saíam os grandes em suas roupas grossas tingidas para camuflagem, os bisacos, que era como chamavam os embornais, a tiracolo, quase vazios, com velhas manchas de sangue, e as espingardas dependuradas pela correia no ombro. Iam. Ele escutava o eco dos tiros, espaçados. Um caçador que se preze não desperdiça bala, não atira a esmo. Se erra, o animal assustado tem a chance de fugir. Existe uma ética da caça. Talvez fosse por isso que ele se recusava a fotografar com máquina automática. Era como caçar com metralhadora.

Quinta-feira, Julho 23, 2009

Presa

Só porque seus dentes são curtos
isso não quer dizer que eles não sirvam
ao mister de rasgar a carne/febra.

Talvez sirvam até melhor para esse fim,
sem o risco de se quebrarem
como uma unha fina.

Terça-feira, Julho 21, 2009

"Eu acho que os escritores são diferentes, sim."
James Salter, escritor estadunidense,
em entrevista ao Entrelinhas,
por ocasião da FLIP

Segunda-feira, Julho 13, 2009

Contenda?

"O escritor é um homem comum"
António Lobo Antunes,
escritor português,
em entrevista ao Entrelinhas
por ocasião da FLIP

O escritor não é um homem comum;
é um homem incomum como todos os outros,
mas que explora a própria mina como poucos.

Sexta-feira, Julho 03, 2009

Jogo com as idéias
apenas para sentir melhor o mistério
até onde elas não chegam

Segunda-feira, Junho 29, 2009

Pensamento, tudo que a mente frutifica - nº4

Pensamento, miscelânea de filosofia e arte, prosa e verso, ficção e ensaio, ciência e poesia, é uma obra em evolução, adaptável ao ambiente e suscetível a mutações. Para seu 4º número colaboraram autores em muitas partes do Brasil - Bahia, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo - e até fora dele - Emirados Árabes, no Oriente Médio -. Estréiam Adriana Antunes, Ana Addobbati, Clareana Arôxa, Claudinha Almeida, Leonardo Bernardes e Nina Fitzgerald, todos com textos pessoais, passionais, em torno do que é essencial na vida, assim como suas inevitáveis contrapartes, e os desenhistas Fabiana Miraz e J.R. Bazilista. Além de novas seções, nosso primeiro cartum e nossa primeira correspondência internacional, traz um artigo sobre “Tocaia Grande”, romance da maturidade de Jorge Amado, o conto “O Náufrago”, por João Paulo Parisio, e o segundo capítulo da prosa cáustica de “Se Acaso o Céu Cair”, por Caio Viana.


Para nossa agradável surpresa, inclusive por estarem sempre em trânsito, os escritores Adriana Lisboa e Cristovão Tezza responderam atenciosamente a uma pesquisa de opinião sobre a reforma ortográfica, bem como o jornalista Felipe Cavalcanti, a professora de português nos EUA Anita Melo e o teórico da tecnologia Valdemar Setzer. Com exceção de alguns desses últimos, todos os escribas nesta edição são bloguistas.


A partir da próxima terça-feira, 30 de junho, à venda nas livrarias Cultura, Saraiva e Imperatriz e através do e-mail livrescribas@yahoo.com.br. O preço continua o mesmo: 7 reais sem cobrança de taxa de frete em todo o território nacional. A versão digital pode ser adquirida por 4 reais através do mesmo e-mail ou da Estante Virtual [estantevirtual.com.br]. Para identificar a publicação no acervo do site, basta preencher o campo de busca com o termo “livrescribas”.


Leia Pensamento, onde nada é meramente ilustrativo. Nem as palavras.

Para o nosso próprio gosto, esperamos que seja do seu.


João Paulo Parisio


Leia o editorial e trechos aqui:

Pensamento, tudo que a mente frutifica




Sexta-feira, Junho 26, 2009

A música tem sobre a alma
a mesma influência
que tem sobre o mar a lua

Quinta-feira, Junho 25, 2009

Somos pelo menos dois:
um que pensa estar no controle
e outro que controla esse primeiro.

Quarta-feira, Junho 17, 2009

Ainda Há Rima

“Os teus olhos são vitrais
Que mudam de cor com o céu
E quando sorriem iguais
Quem muda de côr sou eu”

Madredeus, Movimento
“Ecos na Catedral”, Carlos Maria Trindade

Quarta-feira, Maio 27, 2009

A Lua*

A Lua às vezes é uma lâmina fina, fina, um pêndulo imobilizado no céu, sustentado por algum cordel invisível. Imagina como seria se a Lua começasse a balançar no céu, para lá e para cá, e gerasse uma brisa que lentamente empurrasse as estrelas para as bordas do firmamento. E se a Lua, como uma lâmina, mesmo, balançando para lá e para cá no Abismo, começasse a descer na direção da Terra, mais e mais próxima a cada movimento inexorável, até que rasgasse o tênue véu da atmosfera, dessangrando a Terra de seu ar, deixando que o Vazio entrasse letal como bolhas de ar na corrente sangüínea. E imagine se a Lua, descendo sempre, devastasse cidades e searas, derrubasse palácios e montanhas, abrisse na face do planeta um talho comprido que se fosse aprofundando a cada nova passagem até que a Terra vertesse lava e botasse seus bofes para fora. O Mar se levantaria em ondas revoltosas até se desprender do chão e se derramaria pela ferida como da rachadura de um cântaro.

Como sucede a um bicho, seja homem seja não-homem, tratado nesses termos, pela reconhecida eficácia do método não havia perigo de que a Terra não morresse após breves estertores, e com ela todos os seus parasitas, entre os quais os homens não só se incluíam como eram sua variedade mais emérita. Nessas circunstâncias era mais possível que o cadáver exangue da Terra, por assim dizer empalhado pela natureza, se soltasse da sua velha rota e, como um fruto seco que cai no rio e é levado pela correnteza, iniciasse uma jornada a esmo. No percurso a Terra poderia encalhar em alguma Estrela ou mesmo se consumir em seu calor, ou desaparecer para sempre no redemoinho de um Buraco Negro, mas podia ainda escapar às cegas de todos os obstáculos e desembocar no Infinito.

Isso se a Lua, disfarçada por milênios como lamparina de nossas noites, inspiração dos poetas e dos amantes, anelo dos loucos e dos oceanos, fosse um instrumento da justiça divina; quando cheia, um olho informante dos Arcanjos, quando quase vazia, foice pronta a cumprir a sentença de Deus, cimitarra impiedosa. Pensou nisso tudo, embora seus pensamentos não se organizassem em constelações de palavras, girando nas suas órbitas. Eram antes matéria caótica como quando no princípio era o Verbo. Não se prenderiam a nenhuma forma, e ele, portanto, os esqueceria. Talvez para sempre, talvez até que algo os invocasse outra vez e o levasse a lhes dar prosseguimento, remodelando-os, desenvolvendo-os, ou talvez os misturasse com outros e os deturpasse, e daí resultasse uma terceira heresia, que também seria por sua vez relegada às obscuridades da memória. O fato é que para pensá-los precisava saber muitas coisas que as pessoas nem suspeitavam que sabia. Mas ele vira como um Buraco Negro tem a forma de um redemoinho, e já passara um dia inteiro cismando na idéia do Infinito, até que adormeceu, senão cismava infinitamente.

Foi quando o velho, seu velho pai, apareceu no umbral da porta. Ele se voltou, sorriu, e disse com dificuldade, a voz anasalada, os olhos arregalados e brilhantes:

- A Lua é estraaanha...

O velho não deu atenção à Lua nem a suas palavras. Resmungou que entrasse. Tinha a cabeça cheia de coisas nas quais ele não poderia ajudar, embora já avultasse em homem feito. Contas, prazos, questões, estoques, validades e carregamentos. Não era fácil ser dono de um negócio naquele fim de mundo. Seria bom ter um filho que fosse forte da cabeça, e não só dos braços, para ajudar na mercearia. Mas aquele era de criação, fora colhido ao acaso, como uma fruta levada pela correnteza. E agora que sentia o pulmão cada vez mais fraco, acordava sufocando no meio da noite, doía-lhe não ter deixado herdeiro. Viu-o entrar, obediente como quase sempre era. Não era noite de Lua Cheia. Enrolando mais um cigarro, experimentou o máximo de afeto que aquele ser era capaz de lhe inspirar: teve pena do menino aluado.

*Menção Honrosa no 3º Concurso de Minicontos da Editora Guemanisse

Sexta-feira, Maio 22, 2009

Cigarras: não tão inconseqüentes quanto quer a fábula


Além de encontrar um papel na espionagem, os números primos também aparecem no mundo natural. As cigarras, mais notadamente a Magicicada septendecim, possuem o ciclo de vida mais longo entre os insetos. A vida delas começa embaixo da terra, onde as ninfas sugam pacientemente o suco da raiz das árvores. Então, depois de 17 anos de espera, as cigarras adultas emergem do solo e voam em grande número espalhando-se pelo campo. Depois de algumas semanas elas acasalam, põem seus ovos e morrem.

A pergunta que intrigava os biólogos era: Por que o ciclo de vida da cigarra é tão longo? E será que existe algum significado no fato de o ciclo ser um número primo de anos? Outra espécie, a Magicicada tredecimi, forma seus enxames a cada 13 anos, sugerindo que um ciclo vital que dura um número primo de anos oferece alguma vantagem evolutiva.

Uma teoria sugere que a cigarra tem um parasita com um ciclo de vida igualmente longo, que ela tenta evitar. Se o ciclo de vida do parasita for de, digamos, 2 anos, então a cigarra procura evitar um ciclo vital que seja divisível por 2, de outro modo os ciclos da cigarra e do parasita vão coincidir regularmente. De modo semelhante, se o ciclo de vida do parasita for de 3 anos, então a cigarra procura evitar um ciclo que seja divisível por 3, para que seu aparecimento não coincida sempre com o do parasita. No final, para evitar se encontrar com seu parasita, a melhor estratégia para as cigarras seria ter um ciclo de vida longo, durando um número primo de anos. Como nenhum número vai dividir 17, a Magicicada septendecim raramente se encontrará com seu parasita. Se o parasita tiver um ciclo de vida de 2 anos, eles só se encontrarão uma vez a cada 34 anos, e se ele tiver um ciclo mais longo, digamos, de 16 anos, então eles só vão se encontrar uma vez a cada 272 anos.

De modo a contra-atacar, o parasita só pode ter dois ciclos de vida que vão aumentar a freqüência de coincidências – o ciclo anual e o mesmo ciclo de 17 anos da cigarra. Contudo, é improvável que o parasita sobreviva se reaparecer durante 17 anos seguidos, porque pelos primeiros 16 anos não vai encontrar cigarras para parasitar. Por outro lado, para alcançar o ciclo de 17 anos, as gerações de parasitas terão primeiro que evoluir para o ciclo de 16 anos. Isto significa que, em algum estágio de sua evolução, a aparição do parasita e da cigarra não coincidiria durante 272 anos! Em ambos os casos o longo ciclo vital da cigarra a protege.

Isto pode explicar por que o suposto parasita nunca foi encontrado.”

Simon Singh, “O Último Teorema de Fermat”