Procurar uma palavra
é uma espécie de apnéia
no silêncio
da qual muitas vezes se retorna
- se se renuncia à parecença -
com as mãos vazias,
para só minutos depois
descobrir que o peixe cobiçado desemboca
na loca da boca.

Aula de Lógica


Um elefante nunca esquece.

Uma mulher também não.

Logo:

todos os elefantes são fêmeas.

Flagrante


A menina olhou para a mulher na cadeira de rodas.
Não para suas pernas: para seus olhos.
A mulher na cadeira de rodas acenou de volta.
A mãe esperou que a mulher saísse da loja
e depois repreendeu a filha
 num frenesi de fúria ética
 por trás da prateleira de livros.
Nunca mais faça isso!
sussurrou de dedo em riste,
a coluna eriçada,
os olhos fora das órbitas,
e a menina, triste,
acatou os inescrutáveis desígnios
das pessoas mais velhas.

Renasceu das cinzas como uma fênix,
e como uma mariposa desnorteada
se deixou atrair por um novo amor
que acendia ao longe.

Para o meu gari


Uma vez fui vendedor de enciclopédias e apesar do tédio da permanência em stands nos shoppings e do cansaço de palmilhar avenidas, ruas e becos da metrópole, o acaso me propiciou algumas conversas interessantes. Especialmente senhores de cabeça branca tinham boa disposição para interromper seus passeios e ouvir-me dissertar sobre a excelência daqueles livros ciclópicos.

Mas esse era apenas o ponto de partida para variações sobre política, economia, teologia, física e metafísica. Um desses afáveis interlocutores, que apreciava literatura e perguntou em tom de charada quem era gênio, Rui Barbosa ou Castro Alves, pergunta à qual dei a resposta certa, contou-me que fora gari no Rio do Janeiro e certa vez comparecera ao lançamento de um livro de Clarice Lispector.

- Ela estava fumando muito - disse-me ele fazendo uma mímica de pontas de cigarro ao redor -, com aqueles olhos rasgados, loira, elétrica.

Vendo-o em seu macacão sujo, Clarice o chamou a aproximar-se e deu-lhe de presente um exemplar do livro lançado naquela ocasião. Perguntou-lhe o nome e ele, de tão nervoso - gesto de tremer -, respondeu apenas:

- Gari.

Clarice então escreveu a dedicatória nesses termos: “Para o meu gari”, e ele se foi. E ele próprio, ao me contar e olhar com uma expressão significativa, fez-me notar a correspondência com a música de Chico Buarque, "O meu guri". Deve parecer tolice, crendice, ingenuidade, esoterismo ou devoção exagerada, como pareceu insólita a um amigo a minha tristeza pela morte de Fernando Sabino, mas ter falado com alguém que um dia esteve diante de Clarice foi para mim dadivoso. Como ser o destinatário de uma mensagem aparentemente extraviada, que esse ex-gari, fazendo as vezes de correio, me trouxe. Mas sinto que a ciência ainda necessitará numerosos anos para elucidar a natureza de tal fenômeno.

Drama


A criançada estava doida pra rir com o palhaço,
só que o palhaço não dizia nada engraçado,
apenas fazia estripulias com estardalhaço,
e as crianças que estavam ali para rir,
o riso engatilhado como uma armadilha,
que só esperavam uma migalha
para convertê-la num banquete de maravilhas,
uma centelha para acender a fornalha
e fazer sua alegria soltar fagulhas,
inflamável como um monte de palha,
essas crianças ficaram caladas,
impossivelmente impassíveis,
como se fossem de um mau humor de aço
mais forte que o braço dos seus pais
e o soco dos seus super-heróis,
pois não sabiam agir só por delicadeza
como os adultos requeriam:
ainda não tinham sido adulteradas.
E o palhaço, que não vivia numa palhoça,
nem lhe tinha acontecido nenhuma desgraça,
reconhecendo que havia perdido a graça,
simplesmente encolheu a cabeça
como uma tartaruga na carapaça.
E eu poderia dizer que seu soluço foi tão ímpar
que as crianças o tomaram por farsa
e explodiram numa uníssona gargalhada,
ao que ele, enxugando as lágrimas
que lhe haviam borrado a maquiagem,
recuperou sua mágica de traquinagem,
mas isso não é um comercial de margarina
ou de banco querendo irradiar bom-mocismo,
e a verdade, a dura verdade, é que as crianças,
compreendendo que o palhaço estava dodói,
fizeram beicinho.
E aqui eu poderia ceder à tentação de inventar
que elas se levantaram em silêncio
e o envolveram num abraço solidário,
mas essa não é uma estória da carochinha
feita para entretê-las antes de dormir
ou comover burgueses entediados
como um filme da sessão da tarde,
e sim um caso em que elas tomaram parte,
e a verdade é que os pais, sempre zelosos,
levaram os seus filhos para longe dali
e os fizeram esquecer o mais rápido possível
o incidente que reputaram lastimável
com um suborno de brinquedos e guloseimas
e promessas de muito mais no aniversário,
e quando um funcionário veio avisar ao palhaço
que a megastore já ia fechar
- pois estavam num shopping multitudinário -,
surpreendeu-se de ver que sob a pintura desfeita
havia só um velho com um nariz vermelho,
que pediu apenas para ir ao banheiro,
e ao lavar o rosto e se olhar no espelho
pensou com saudade nos tempos do picadeiro,
quando o circo se jactava de ser
O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA,
antes de ser arrojado no desterro.
E para salvar meu relato eu poderia dizer
que o palhaço se retirou aos tropeços
e se atirou de uma ponte
sendo arrastado direto para o fundo
pelos seus sapatos como por bolas de ferro
acorrentadas aos calcanhares,
mas isso não é uma tragédia grega
nem o último capítulo enjeitado
de um romance de Franz Kafka,
e a simples verdade é que ele saiu à paisana
tomou um ônibus como outros trabalhadores,
foi em pé todo o caminho para casa,
onde dobrou a fantasia com esmero,
arrumou seus apetrechos numa caixa
e acomodou tudo numa velha arca
puxada de debaixo da cama,
para cujo interior olhou uma última vez
antes de fechá-la sem maiores dramas.

O Ilhéu


Os homens entraram na ilha.
O chefe dos homens pegou um pau no chão
e perguntou ao ilhéu O que é isso?
O ilhéu respondeu É um pedaço de pau.
Não, isso aqui é uma pedra,
disse o chefe dos homens
e perguntou a um de seus asseclas O que é isso?
Isso aí é uma pedra, respondeu ele.
O chefe dos homens se voltou para o ilhéu
e perguntou mais uma vez O que é isso?
Um pedaço de pau, respondeu o ilhéu.
O chefe dos homens perguntou
a outro de seus sequazes O que é isso?
Uma pedra, com toda certeza,
foi o que esse último respondeu.
E o chefe se voltou para o ilhéu.
O que é isso?, perguntou ainda uma vez,
e o ilhéu viu que os homens tiravam pedras dos bolsos.
Isso é uma pedra, como agora vejo, respondeu.
Os homens se retiraram da ilha,
e o ilhéu continuou a viver,
embora tivessem levado sua ilha embora.

O Ilhéu



Os homens entraram na ilha.
O chefe dos homens pegou um pau no chão
e perguntou ao ilhéu O que é isso?
O ilhéu respondeu É um pedaço de pau.
Não, isso aqui é uma pedra,
disse o chefe dos homens
e perguntou a um de seus asseclas O que é isso?
Isso aí é uma pedra, respondeu ele.
O chefe dos homens se voltou para o ilhéu
e perguntou mais uma vez O que é isso?
Um pedaço de pau, respondeu o ilhéu.
O chefe dos homens perguntou
a outro de seus sequazes O que é isso?
Uma pedra, com toda certeza,
foi o que esse último respondeu.
E o chefe se voltou para o ilhéu.
O que é isso?, perguntou ainda uma vez,
e o ilhéu viu que os homens tiravam pedras dos bolsos.
Isso é uma pedra, como agora vejo, respondeu.
Os homens se retiraram da ilha,
e o ilhéu continuou a viver,
embora tivessem levado sua ilha embora.

Bigamia


Se a prosa é a minha consorte,
a poesia é a minha amante,
mas como elas amiúde se trocam
ou dividem com liberalidade
o mesmo leito
direi que são dos meus olhos
as duas meninas,
ambas minhas concubinas,
embora saiba muito bem
quanto esse matrimônio é ilusório:
eu é que sou só mais um escravo
de seu harém compulsório,
e essas duas inimigas,
embora ubíqua,
uma mulher só.

Ônus


O ônibus avança
devagar como um andor,
parando e andando,
parando e andando,
colhendo e semeando pessoas,
em meio à procissão do trânsito.
Não vou dizer que as amo:
isso seria auto-propaganda
de quem quer se destacar da multidão
- a demagogia só cai bem aos políticos -,
e eu também estou dentro do ônibus,
me segurando nos mesmos canos,
também sou rês do gado humano,
mas não só eu e os outros
que nos apertamos,
que nos apartamos,
que nos amparamos,
numa constrangida solidariedade,
num compulsório congraçamento:
também o motorista do ônibus,
também o dono da empresa de ônibus,
- quiçá num carro logo ao lado -
também o diretor de transportes urbanos,
- quem sabe nos olhando de sua cadeira giratória
diante de uma ampla janela -
assim como o chefe da nasa
- quem sabe presciente de que um meteoro
vai cair sobre nós nas próximas horas -
e o comandante das forças armadas americanas
- quem sabe nos espionando através de satélites
estrategicamente posicionados no espaço -.
Somos o descomunal rebanho
da abstração que entronizamos,
o monstro que libertamos
agora nos aprisiona.
Só nos tornamos nossos senhores,
ainda que só por um instante,
quando nos reinventamos.

Enquanto viajo
minha imaginação se alimenta
lenta e gulosa e tenaz como uma lesma
da paisagem que passa, veloz,
na voragem do tempo.

Há vida no engarrafamento, basta que ele se prolongue o suficiente


Depois de algumas desilusões, finalmente me deparei com um conto de Cortázar realmente ofuscante: "A autoestrada do sul", o primeiro de "Todos os fogos o fogo", que recomendo mais particularmente àqueles que já ficaram presos num engarrafamento na volta de um feriadão, ou seja, todo mundo. Creio que a leitura seja mais adequada para quando se dispõe de um bom tempo pela frente, como quando se está preso no trânsito, por exemplo.

Como profeta, um excelente monge


"O povo crê a nosso modo, e o ativista ateu nada realizará aqui na Rússia, mesmo que seja sincero de coração e genial de inteligência. Lembrai-vos disto. O povo enfrentará o ateu e o vencerá, e restará uma Rus ortodoxa e una. Defendei o povo e protegei seu coração. Educai-o em silêncio. Eis a vossa proeza de monge, porque este é um povo teóforo."

Stárietz [mestre da igreja ortodoxa russa] Zossima em Os Irmãos Karamázov [1879], de Dostoiévski. Em 1917, a Revolução Russa fez da Rússia a União Soviética, o primeiro país socialista do mundo. Não que eu bote a minha mão no fogo pela sinceridade de coração e pela genialidade de inteligência de Lênin & Cia.
A música cria novos lugares
na geografia da alma.

Progresso, Contagem Regressiva


A cidade se repete como um relógio.
A cidade é um relógio,
e nós somos sua bateria,
de uma tecnologia difusa
que a nossa ainda não atingiu,
peças reponíveis
por seu próprio mecanismo,
ecologicamente viáveis
posto que biodegradáveis,
e programadas com uma forte ilusão
de plena autonomia.

Profecíola


Mãe, o que era papel?

Manifestação do Inconsciente - Portas e Janelas


Hoje, depois da leitura aflitiva de uma apostila de Windows em pleno ônibus, ao me levantar com a aproximação da minha parada assobiei insensivelmente uma música que por alguns instantes não identifiquei, embora a reconhecesse, eu diria, intimamente. Era "People Are Strange", do The Doors, que eu não ouvia há muito tempo.

Viagem


Ontem viajei para um lugar
onde minha alma tem um correspondente físico,
uma nuvem alaranjada
                     que flui
e reflui
de acordo com os movimentos da minha alma.

Lucidez


Às vezes eu olho pra cidade grande
e vejo uma cena do pleistoceno.

Devoluto


Qual o tamanho da minha alma?
Alma, alma, alma,
ressoa o eco
no interior do deserto
sem o menor sinal de paredes.

Pele Sensível


Gelas,
ardes,
com que facilidade.
A tudo teu coração reage.
Um dia entraste em transe
observando a tarde
como se pela primeira diante
de uma aurora boreal,
magnética tempestade
nos olhos incendiados.

Novelo Vivo


As idas
e vindas,
as idas
e vindas,
as idas
e vindas,
infindas sendas,
fendas cindidas,
jazidas infensas,
vinhas feridas,
jazigos de vênias,
vivendas de iras,
vidas vêm,
vidas vão,
não em vão:
são fazendas
de sentido.

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